Nunca o tinha feito, mas sabia que um dia chegaria a minha vez. Vi a minha mãe fazê-lo e, depois da sua morte, era o meu pai quem o fazia. Quando também ele se foi, o meu irmão - novo patriarca da família - assumiu de imediato a responsabilidade.
Neste último fim-de-semana, porém, já que andava por ali, resolvi agarrar-me à tarefa.
De roupa velha, escova e lixívia, balde e trapos velhos, ajoelhei-me e esfreguei. Ia conversando e ia atirando os baldes de água conforme as ordens da Maria Borba - minha vizinha de toda a vida e que sempre me fez as vezes de avó - e ao ritmo das conversas de outras mulheres que andavam ao mesmo. Algumas, amigas de minha mãe. Outras, amigas minhas, de vidas menos privilegiadas e que aprenderam bem mais cedo do que eu o que fazer no dia a que, em algumas circunstâncias, se chama
de todos os santos, mas que na verdade, é o
dia dos mortos - designação que traz um
carinho que compreendemos melhor quantas mais pessoas queridas tivermos perdido.